"Ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho."
Fernando Pessoa

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Perguntas

O que fazer

Com a boca sem comida

Com a perna sem corrida

Com meus olhos sem te ver?

.

O que dizer

De uma ovelha sem rebanho

De um gigante sem tamanho

E de uma dor sem um sofrer?

.

O que falar

De um dizer sem um ouvir

De um partir sem despedir

E de mim sem desenhar?

.

Mas enfim, por que reclamo?

Se te abraço com carinho

Se me beijas com jeitinho

E se digo que te amo?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O Sabor das Coisas


Nada mais me persegue,
Nem sentimento
Nem solidão...
.
A brisa não sopra no rosto
Não mais a areia nos pés
Não ouço mais a canção...
.
É um delírio, talvez
Mas não sinto, não vejo
Só calo.
.
Sem o sabor do beijo ardente
Não vejo a beleza da paixão
Somente a vida à escorrer pelo ralo
.
O cheiro da terra molhada
As pernas pro ar no Domingo...
Nada. Apenas eu.
.
Foi só o que restou.
Da brisa, da areia, das pernas
Sobraram as sombras, ocultas no breu.



Eugene Delacroix

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Madrugada e Primavera


Para Silvana Bronze



Tuas linhas são sutis

Na mais sublime delicadeza,

Exprimem toda a beleza

Das tantas noites primaveris

.

Tua mão trabalha inquieta

Nessa mágica diletância,

Escreves com elegância

E a altivez de um asceta

.

As palavras são como luz

E iluminas com elas a escuridão

Dissipando a desolação

Com teu poema que reluz

.

Estes versos para ti eu fiz

Para esta poetiza tão querida

Nestas horas mal dormidas

Destas noites primaveris.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Maçã


Um poema perdido no escuro

Carrega a luz de catedrais

E outras tantas coisas mais

De um poeta sem futuro

.

Leva o sorriso do menino

O coração apaixonado

O ermitão desabrigado

E um poeta sem destino

.

Um poema perdido é como maçã

Rubro de necessidade

Cansado da meia verdade

De um poeta sem amanhã

.

E o poeta, pobrezinho

Declara-se as suas Musas

Unifica as massas exclusas

E no fim acaba sozinho.





domingo, 1 de novembro de 2009

Retomando as atividades blogueiras depois de uma Semana Acadêmica cansativa, segue um poeminha antigo.

Setembro


Depois da última decepção

Desisti! Deixei o barco fluir

Estou cansado! Cansado de agir

E só encontrar desolação

.

Foi na semana passada, não lembro

Só sei que acabou sem começar

Não pude nem mesmo imaginar

Este amor que não foi, em setembro

.

Que não foi, por dois motivos ou três

Este amor que jamais existiu

Minh’alma não viu, meu coração não sentiu

Este amor que não foi, neste último mês

.

Não tardou, partiu sem demora

Irrompeu a portada, tomou a rua

Pôs veste e pudor nesta hora nua

Este amor que não foi, e se não foi, vou embora.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Pele Morta

Se um dia caminhares pelas ruas

E veres marcas profundas nas paredes

Saibas que fui eu que as fiz

Em intenso desespero a tua procura

.

Na incitante necessidade de te querer

Consumir-te em corpo e alma noite adentro

Tornando-te parte única de mim

E dos sabores incompletos de minha vida

.

Enquanto chove eu caminho no escuro

Por vielas inquietas neste horizonte limitado

Em que só vejo a tua exótica beleza em minha mente

Alimentando-me perigosamente frente aos perigos de te querer

.

Porém não percebes essa minha obsessão

De devaneios metafísicos ao teu lado

Notas apenas as marcas nas paredes

E os pedaços da minha pele morta que gritam o teu nome






domingo, 18 de outubro de 2009

Carta


Esta não é mais uma carta de amor
Em que juras são trocadas com facilidade
Já não é minha esta tal ingenuidade.
Esta é uma carta que exprime dor

A dor de um cálice quebrado
Deixando escorrer desamores de uma vida
Decepções de uma existência perdida,
Desilusões de um amor recusado

Não ter para quem poetar dói
Rompe a carne, fere o ego
Alucina-me, deixa-me cego
Esta dor que em mim corrói

E nesta taça de vinho tinto
Entrego toda a ânsia que reside em meu peito
Entre os cacos de minh’alma deito
Revelando-te em doses breves tudo o que sinto.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Making off das gravações do Contador de Histórias

Não




Não! Não é assim que tudo termina

Nada começa pelo fim

A dor não nasce assim

Não é assim que ela germina

.

Feita assim foi minha vida

Pelo fim, pela metade

Plasticidade, meia verdade

Minha razão abstraída

.

Razão feita em vazio

Forjada em pura maldade

Presentearam-me com mediocridade

Tornaram-me mais um gentio

.

O torpor é só um afago

Para mim que co-existo

Ao teu carinho eu resisto

E a minha dor a ti eu trago

.

E bebo, e grito, e clamo

Na madrugada insólita percebo

Nas noites ébrias de mancebo

Que somente a ti eu chamo.

.

E o fim, então

Nada mais é que o começo

Este nefasto adereço

Penduricalho da desilusão.




Fotografia de Cig Harvey

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Amanhece enquanto morro


Se todos por aqui sorriem

Por que querem eles que também eu sorria?

Ou eles não precisam de ninguém para chorar?

.

Foram muitas as noites

Em que sufoquei em sofrimentos ambíguos

Alimentando-me desta mistura impecável

De amor sem resposta e solidão

.

Companheiros valentes, às vezes fiéis

Jamais me abandonaram quando não precisei

Arrastando-me para devaneios poéticos (como esse)

Em que perco-me em minha própria insânia

.

E quando amanhece

Surgindo o sol com seus fulgores

Quebrando o ritmo silencioso da minha rouca alegria

Resta-me calar e consentir

.

De que não há espaço para loucos nesse mundo

Loucos como eu

Loucos e sonhadores

Na crença fanática de um amanhã que nunca virá




Fotografia de Sasha Huttenhain

domingo, 11 de outubro de 2009

Beijo-te pela última vez
Em prantos que escorrem finos pelo rosto
Inaudíveis neste silêncio perturbador
Em que só ouço o rufar frenético do teu coração

Em que só sinto a tua presença na multidão
Oceano de faces plúmbeas inexpressivas
Em que só brilha a tua luz divina
Luz imaculada que arde em meu peito

E me respondes com teu sorriso meigo
Capaz de resgatar-me dos abismos mais profundos
Restituindo-me a vida, que há muito esqueci
Nas curvas escabrosas das estradas que trilho

Mas teu sorriso é em ar de despedida
Um desatino descompassado como tudo o que vivo
Melancolia complexa que não me faz compreender
A simplicidade de amar, a intensidade do amor

E acordo, como que imerso em torpor iníquo
Sem a menor sombra de tua presença
Resvalando nestes corpos cinzentos que compõe a multidão
E que agora nem sequer o prazer do teu beijo me permite...

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Teus olhos

Teus olhos da cor do mel

Teus olhos que são meu dia

São eles minha alegria

Estes o meu doce fel

.

Que brilham nesta brancura

Perdidos na natureza

A mais alta realeza

Teus olhos que são candura

.

Esferas tão pequeninas

Olhinhos que só reluzem

Esferas que me seduzem

Olhos de mulher menina

.

São eles a minha paixão

Minha constante agonia

Sem te ver nada faria

Sem vê-los não tenho chão.




Fotografia de Malcom Pasley

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Agonias em uma noite de vendaval

Deposito em ti minha paixão juvenil

Paixão de varanda sob a chuva fina e fria

A tua espera, que torna-se deveras tardia

Tão longa como a chuva gélida desta noite veranil.

.

Tão triste como a tarde que não vem

Como o sol que nunca brilhou em teus cabelos

Enquanto toco-lhes, mesmo sem tê-los

Na mais pura necessidade de querer-te bem

.

Esta paixão de varanda que não mais esqueço

Momentos em que senti a vida retornar

Porém agora, sozinho, não posso desejar

O amor, sentimento complexo que desconheço

.

E perco-me em devaneios nessa insensatez

Em lamentos que ninguém escutará

Pois sei que ninguém jamais a atenção prestará

As suplicas dessa minha pequenez.

domingo, 4 de outubro de 2009

Paz

Foi essa paz a minha brandura
O sono alto de minha infância
Essa, que foi minha loucura
O estandarte de tal jactância.
.
Paz funesta de noites tempestuosas
Arruinou o meu castelo de onirismos
Estilhaçou minh’alma, de atitudes virtuosas
Lançou-me ao mais completo ostracismo.
.
Foi essa paz, e só ela
Que castigou o meu corpo embriagado
E atirou rua afora, pela janela
Os meus sonhos de menino acuado
.
Tantas dores eu sofri chorando mudo
Não era paz isso o que tinha!
Pois foi a prova mais pura do absurdo
Ter meu corpo estirado, em um chão de ervas daninhas
.
Era essa a paz do meu assédio
Olhar sem ver este amor que me traiu
Ela, que foi o meu remédio
Em meu leito de morte, curvou-se e sorriu


Fotografia de Bill Brandt

sábado, 3 de outubro de 2009

Resquícios de uma noite incomum

Poetar,

É empírico

Não há nada de lírico

Nem sequer o declamar

.

Não há métrica, só rima

Em cada linha de minha vida

Expressam cada ferida

De cima a baixo, de baixo a cima

.

Perco-me em devaneios

Cada vez que penso em ti

E em cada vez, minha solidão sorri

Por ti!E te perco em entremeios.

.

E supuro lentamente

Por saber que não virás

Que em outras trilhas andarás

E esquecerás desse demente

.

Que nessas linhas, escreve dúvidas em sangue quente.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Nada para dizer, escrevo isto aqui


Em linhas tortas, um vaticínio

De que nada que existe pertence a mim

Nada! Paro por aqui, chego ao fim

Neste doce/entorpecente declínio

.

Mas ainda há o que dizer

Todo o brilho do mundo se apagou

Tudo! Nada encanta-me, jamais encantou

Nada! É o que digo novamente, é o que habita o meu ser

.

Um nada insistente

Que faz minha vida espargir

Esvaem-se minhas horas, meus dias, o meu existir

De desprazeres, de desamores, toda essa gente

.

Porém tudo isso ainda abriga

Um turbilhão de pensares em desatino

Pasmo! Ao te ver, perfeição em um ar feminino

E se puderes, me diga:

.

Uma vida insinuante

Em um corpo inconseqüente

Pode esse amor sufocante

Tornar minh’alma fria, quente?




William Borguereau

sábado, 26 de setembro de 2009

Cansei de insistir no inexistente
No descaso de cada ser
Na angústia de cada alma

Cansei de correr atrás no intangível
Do inimaginável

Estou cansado enfim do que condiz
Com toda essa inverdade que me ilude
Toda essa loucura densa em minha mente

Cansei pois de tudo, cada face sem cor
Cada apelo inaudível
Cada afago que não sinto

Cansei, e canso cada vez mais.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Para o amor que não veio


Espero

Como o corpo a beira da cova

Em fino linho, em veste nova

Apenas desespero

.

Sufoco ante tamanha dor

Ante tudo o que não posso ter

Vejo a vida em que jamais vou ser

O teu eterno, o teu sincero amor

.

E de malgrado me recusas

Neste perjúrio alucinante me enlouqueces

Vejo-te, e sei que adormeces

Em outros braços, como outras musas

.

E sei, na frente desta garrafa viciante

Que nada do que digo vai mudar

Este inconstante/demente mal estar

Neste turbilhão de pensamentos, dessa mente inconseqüente.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Solidão sórdida de uma monotonia do caos


Toca-me como a um vaso raro

A tudo o que te é sagrado, ou profano

Toca-me como a algo mundano (que sou!)

Trata-me como a tudo o que te é caro

.

Arrisca tuas cartas, teus ases

Todos os trunfos de tua sorte

Dance entre a vida e a morte

Com os teus desamores, faças as pases

.

Sobre tudo ame

A todos os tipos que veres e ouvires

Cases, descases, eternos devires

Na noite sórdida, a penas me chame

.

E clames ainda

Se o teu coração partir

Gritos no silêncio haverás de ouvir

Para a minha solidão, que não finda.

.

Grites!Grites!Grites por mim

Em cada segundo sem graça de minh’alma

Tira-me a minha, a tua calma

Dessa minha morte sem fim.





terça-feira, 22 de setembro de 2009

Para minha mãe

Surgi contorcido no ar

Em gritos. Dores raivosas

Observei faces tenebrosas

Atônitas! Eu não parava de gritar!

.

Arrepiou-me o dorso e a espinha

A água gélida que ungiu-me a tez

Colapso, espasmo, tudo de uma vez

Senti tudo aquilo que outrora eu não tinha

.

Murmúrios e luzes violentas

Aturdiam meus sentidos abalados

Zunidos, tilintos e vidros quebrados.

Instigavam-me cores pardacentas.

.

De repente o repouso. Um local quente

Um aconchego escuro e estranho

Todo o calor possível, apanho

Ao meu redor bestas-feras com cara de gente

.

Só depois que fui crer nessa dor

Eu nasci, meu Deus! Expelido no mundo

Tiraram-me do breu, do escuro profundo

Extraíram-me da vida para o torpor.

.

Somente em ti vi o auxílio

Calor maternal que me salvou

Que em minha face rugosa vislumbrou

O amor em persona, o refúgio, o exílio

.

Porém jamais encantei alguém

Somente tu, ó mãe querida

Vê em mim candura, nesta face aturdida

Que nunca amou ninguém

.

E somente em ti, em cada noite insana

Enxergo minha vida marcada na tua

Sentes minha dor, em cada hora nua

Em cada hora nua de minh’alma tirana

.

Mas se crês, para mim já basta

Por saber que em ti tenho o meu porto seguro

Em que a cada noite, sozinho no escuro

Nos teus braços me escondo, e a solidão se afasta.


Fotografia: Sara Saudková

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Só restou o desencanto