Nada mais me persegue, Nem sentimento Nem solidão... . A brisa não sopra no rosto Não mais a areia nos pés Não ouço mais a canção... . É um delírio, talvez Mas não sinto, não vejo Só calo. . Sem o sabor do beijo ardente Não vejo a beleza da paixão Somente a vida à escorrer pelo ralo . O cheiro da terra molhada As pernas pro ar no Domingo... Nada. Apenas eu. . Foi só o que restou. Da brisa, da areia, das pernas Sobraram as sombras, ocultas no breu.
Esta não é mais uma carta de amor Em que juras são trocadas com facilidade Já não é minha esta tal ingenuidade. Esta é uma carta que exprime dor
A dor de um cálice quebrado Deixando escorrer desamores de uma vida Decepções de uma existência perdida, Desilusões de um amor recusado
Não ter para quem poetar dói Rompe a carne, fere o ego Alucina-me, deixa-me cego Esta dor que em mim corrói
E nesta taça de vinho tinto Entrego toda a ânsia que reside em meu peito Entre os cacos de minh’alma deito Revelando-te em doses breves tudo o que sinto.
Quebrando o ritmo silencioso da minha rouca alegria
Resta-me calar e consentir
.
De que não há espaço para loucos nesse mundo
Loucos como eu
Loucos e sonhadores
Na crença fanática de um amanhã que nunca virá
Fotografia de Sasha Huttenhain
domingo, 11 de outubro de 2009
Beijo-te pela última vez Em prantos que escorrem finos pelo rosto Inaudíveis neste silêncio perturbador Em que só ouço o rufar frenético do teu coração
Em que só sinto a tua presença na multidão Oceano de faces plúmbeas inexpressivas Em que só brilha a tua luz divina Luz imaculada que arde em meu peito
E me respondes com teu sorriso meigo Capaz de resgatar-me dos abismos mais profundos Restituindo-me a vida, que há muito esqueci Nas curvas escabrosas das estradas que trilho
Mas teu sorriso é em ar de despedida Um desatino descompassado como tudo o que vivo Melancolia complexa que não me faz compreender A simplicidade de amar, a intensidade do amor
E acordo, como que imerso em torpor iníquo Sem a menor sombra de tua presença Resvalando nestes corpos cinzentos que compõe a multidão E que agora nem sequer o prazer do teu beijo me permite...
Foi essa paz a minha brandura O sono alto de minha infância Essa, que foi minha loucura O estandarte de tal jactância. . Paz funesta de noites tempestuosas Arruinou o meu castelo de onirismos Estilhaçou minh’alma, de atitudes virtuosas Lançou-me ao mais completo ostracismo. . Foi essa paz, e só ela Que castigou o meu corpo embriagado E atirou rua afora, pela janela Os meus sonhos de menino acuado . Tantas dores eu sofri chorando mudo Não era paz isso o que tinha! Pois foi a prova mais pura do absurdo Ter meu corpo estirado, em um chão de ervas daninhas . Era essa a paz do meu assédio Olhar sem ver este amor que me traiu Ela, que foi o meu remédio Em meu leito de morte, curvou-se e sorriu